Elementos de Antropologia Filosófica

Nesta série de posts vou publicar um trabalho sobre "antropologia filosófica" que elaborei uns anos atrás.

Por "antropologia filosófica" entendo um conjunto de crenças ou idéias tanto normativas quanto descritivas sobre o que é o ser humano.

A idéia não é descobrir o que o ser humano é, nem nada do gênero. Quando escrevi o trabalho pretendia mostrar que as crenças valorativas sobre o ser humano que alguns autores importantes teimam em sustentar podem prejudicar suas teorias ou obras. Também pretendia mostrar que isto não é inevitável e que alguns autores assumem crenças menos valorativas sobre o ser humano ou ao menos permitem que suas obras independem de suas crenças valorativas.Na verdade me incomoda ouvir tantos professores e pesquisadores afirmarem constantemente que todo o conhecimento é necessariamente eivado de valor, com a conseqüente dedução de que é inútil tentar construir conhecimento neutro. O que fiz foi estudar a obra de alguns autores importantes e buscar ali tanto suas crenças acerca da "natureza humana" quanto as conseqüências delas para suas teorias.

Primeiro vou apresentar elementos de antropologia filosófica em Karl Marx, seguidos de considerações sobre suas consequências para seu pensamento sociológico. Não desconheço as inúmeras controvérsias que rondam o pensamento de Marx, mas não pretendo lidar com elas aqui. Admito que minha interpretação de Marx pode ser, e será com certeza, causa da fragilidade dos meus argumentos, já que as inúmeras outras interpretações poderiam ser usadas para me refutar. Ademais, é bem possível que as implicações que penso encontrar, da antropologia filosófica marxista em seu pensamento, sejam contestáveis, mas a ousadia pode garantir grande aprendizado. A principal conseqüência de tal concepção da natureza humana que vislumbro na explicação sociológica deste autor é a seguinte: o homem é visto como intrinsecamente dotado de valor, é bom, não pode, portanto, ser a base da explicação de uma sociedade má.

Em seguida vou fazer o mesmo com a obra de Durkheim. Tem-se na obra deste autor uma idéia inversa, que redunda, porém, nas mesmas conseqüências. Para Durkheim o homem é um animal, só isso. Nada há na natureza humana que denote a grandiosidade moral e cognitiva que o ser humano adquire em sociedade. Ora, argumentaria Durkheim, do nada nada vem, donde não pode o homem, que não é dotado de qualquer valor, emprestar à sociedade uma grandiosidade tão evidente. A partir desta noção Durkheim é capaz de deduzir que não é o homem, mas a sociedade enquanto um ente distinto e independente, o objeto a ser estudado. Não pode o indivíduo ser a base da explicação sociológica porque não é nada mais que um simples animal, cujo comportamento seria explicado da mesma forma como se explica o dos demais animais. A intencionalidade é antes objeto de estudo que fator explicativo.

Por fim vou apresentar alguns elementos do pensamento do jurista naturalizado americano Hans Kelsen. A idéia geral de todo o trabalho é mostrar que a abordagem de Kelsen, especialmente sua idéia de sociedade em oposição à natureza, aponta para uma explicação sociológica de tipo intencional, ao mesmo tempo em que reconhece que a sociedade não é um somatório de ações, intencionais ou não, ou melhor, não é constituída por indivíduos. Além disso, nenhuma antropologia filosófica que leve em consideração uma deontologia imanente ao ser humano ou a ele atribuída pela sua condição de ser social encontra eco na obra kelseniana. Essa visão cética do ser humano, que o percebe como um animal qualquer me parece ser um requisito para quem pretenda manter uma postura axiologicamente neutra.

Tá, talvez esse post tenha ficado muito recheado de jargões, mas não tive muito tempo para revê-lo. Vou melhorar sua redação em breve, à medida em que for publicando os artigos sobre cada um dos autores.

Comentar

Filtered HTML

  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Tags HTML permitidas: <a> <em> <strong> <cite> <blockquote> <code> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd>
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.