Filmes, novelas, revistas e até telejornais apresentam constantemente a fé como uma grande virtude, algo praticamente indispensável para garantir a consecução de qualquer objetivo. Ouvimos repetidamente frases como "é preciso acreditar", "confie que tudo dará certo", "acredite". São chavões em programas de TV, slogans de OnG, comerciais de empresas, todos unidos no propósito de nos convencer de que a fé é uma virtude. Lamento, mas a fé não é uma virtude, mas sim uma falha de caráter, um mal mental que afeta o comportamento e a cognição de suas vítimas.
A fé é a convicção firme e independente de evidências. Ter fé quer dizer confiar ou acreditar sem provas ou apesar das provas.
Ter fé é estar teimosamente equivocado.
Uma pessoa ignorante lastima sua condição, uma pessoa de fé se orgulha dela.
Por toda parte há gente que se considera, de uma forma ou de outra, ignorante. Repetem que lamentam não ter podido estudar mais. Dizem que entenderiam melhor as notícias, os documentários, que aproveitariam melhor suas viagens. A ignorância é um mal remediável. Posso evitar que ele recaia sobre a próxima geração, posso tentar corrigir minha própria situação retomando estudos, lendo livros. Ninguém é definitiva e permanentemente ignorante.
Infelizmente há também por toda parte gente de fé. Repetem que creem "sem ter visto" e se orgulham de nunca haver questionado. Dizem que sua fé as torna pessoas melhores, merecedoras de recompensas inimagináveis e que assistirão de camarote ao fim melancólico ou cruel dos que não têm fé. A fé é um mal difícil de remediar. As pessoas a impõe sobre a próxima geração e quem quer que se atreva a questionar será punido física ou psicologicamente. A fé é um presente de grego, uma doença transmissível, uma droga que causa terrível dependência e em alguns casos alucinações.
O ditado que diz "o pior cego é aquele que não quer ver" se aplica perfeitamente à pessoa de fé. O crente não quer ver porque pretende ser imensamente recompensado, no que é egoísta, ou porque tem medo de ser punido, no que é covarde. A fé foi imposta sobre a grande maioria das pessoas e é alimentada por ameaça constante: aquele que abandona a fé é confrontado por seus amigos e parentes, enfrenta uma batalha psicológica cruel e ainda assiste pasmo ao estado e sociedade patrocinarem seu carrasco.
A fé é certamente um dos maiores males sociais de todas as épocas e um dos grandes defeitos que as pessoas carregam consigo. Gerações anteriores lutaram bravamente para reduzir a influência da fé e criar a liberdade da qual desfrutamos atualmente. A fé foi amansada e quase domesticada. Ter fé se tornou para muitos simplesmente comparecer a alguns eventos sociais e entregar seus filhos aos doutrinadores.
A pessoa questionadora, essa sim é virtuosa. Assume a responsabilidade de verificar os compromissos que firma, de responder pessoalmente por suas ações, de aprender com seus erros e mudar de opinião e comportamento diante das evidências apresentadas pelos outros. Feliz aquele que desconfia, que pede garantias e provas, pois evitará cair nas armadilhas de charlatães e estelionatários.
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